28 de jan de 2015

NOVA JERUSALÉM - UM ESTUDO BÍBLICO ESCATOLÓGICO

 

 Gary T. Meadors
 
O clímax da história da redenção eterna é visualizado na descrição de João da Nova Jerusalém em Apocalipse 21-22. A nova Jerusalém é o foco para a atividade na nova terra. A nova Jerusalém oferece uma elaboração da natureza dos novos céus e nova terra, introduzidos em Apocalipse 21:1. A primeira referência explícita à nova Jerusalém está na mensagem à igreja de Filadélfia, em Apocalipse 3:12, onde é prometida como recompensa para quem vencer (um sinônimo para os crentes, cf. 1 João 5:4-5). Jerusalém oferece uma imagem de continuidade que une a terra e história escatológica em relação a onde Deus e seu povo moram juntos. A imagem geral de uma futura Jerusalém simboliza o cumprimento de muitas das promessas de Deus ao Seu povo (cf. Isa 2:1-5; 49:14-18; 52, 54, 60-62; 65:17-25; Jer 31 :38-40; Miquéias 4:1-4; Zc 14). A ideia de uma idealizada e/ou escatológica Jerusalém é referida de forma diferente na frase “Nova Jerusalém”. Embora o Antigo Testamento não contenha nenhuma referência explícita a uma nova Jerusalém, em Isaías inclui-se declarações de novos céus e nova terra em Jerusalém (65:17-19; 66:22). A alegoria de Paulo da “Jerusalém de cima” em Gálatas 4:25-26, proporciona uma imagem idealizada para Jerusalém. Hebreus 12:22 fala da “Jerusalém celeste”. Apocalipse 21:2, 10 referem-se a nova Jerusalém como a “Cidade Santa” (cf. Mt 4:5; 27:53). Em Apocalipse 2:7, fala-se do “paraíso de Deus”, o que pode antecipar a nova Jerusalém de Apocalipse 21-22.

A concentração de uma Jerusalém restaurada como um símbolo do cumprimento das promessas de Deus ao povo judeu também está presente na literatura não-canônica. Estas ocorrências destacam a esperança judaica para um novo mundo onde os seus ideais seriam cumpridos. Primeiro Enoque 90:28-29 relata uma visão de uma transformação da casa “antiga” em uma nova, o que representa uma Jerusalém transformada. Os Oráculos de Sibillinos 5:414-29 registra a provisão de Deus de uma nova cidade (um templo está incluído em contraste com Ap. 21-22, o que pode refletir uma perspectiva de uma terra mais orientada). Segundo Baruque 32:1-4 fala-se da nova cidade que será reconstruída após a velha ser sacudida e arrancada como sendo “aperfeiçoada para a eternidade” (cf. 2 Edras 7:26; 10:25-28; 13:36; Tobit 13:8-18; T Dan 5:12-13). Segundo Baruque 4, se compara a nova cidade com o “paraíso original”, uma comparação interessante, à luz de Apocalipse 2:7. O trabalho criativo de Deus começa e termina com o paraíso.

A configuração contextual da nova Jerusalém em Apocalipse 21-22 está intimamente relacionada com a cidade do mal, Babilônia, a grande prostituta em Apocalipse 17-19. As comparações linguísticas dos pontos possíveis de cada terminal de visão são mais marcantes (cf. 17:1-3 com 21:9-10; 19:9 b-10 com 22:6-9). Ambas as cidades são também vistas como mulheres, a prostituta e a noiva. A resposta de Deus às estruturas más deste mundo é o paraíso reencontrado na nova Jerusalém.

O significado das imagens do Apocalipse 21:9-22:5 está razoavelmente bem estabelecida nos padrões bíblicos e extra-bíblicos. O uso da metáfora da noiva (21:2) não restringe a referência para a igreja do Novo Testamento, mas deve ser visto em seu amplo uso bíblico como referência ao povo de Deus, que é casada com o Senhor (cf. Isa 61:10; Hos. 1-3; João 3:29, Ef 5:25-33). Apocalipse 21:9 iguala as imagens da noiva e esposa. A inclusão de Israel e da igreja é exigida pela descrição da cidade (cf. Hb 11:10, 16). As doze tribos de Israel e a Igreja com seus doze apóstolos são ambos incluídos. As pedras (21:19-21) nos traz a lembrança do peitoral do sumo sacerdote (Êxodo 28:17-21; 39:10-14) e o jardim de Deus em Ezequiel (28:13), embora as listas não sejam as mesmas e João aplique as pedras para os doze apóstolos. A fonte da vida (Ap 21:6) e do rio (22:1-2) lembram-nos de Ezequiel 47, mas o rio em Ezequiel emana do templo, e em Apocalipse 22 do trono. A nova cidade, porém, é essencialmente um novo templo, pois é a morada de Deus e do centro da atividade religiosa. A nova Jerusalém é um cubo de enormes proporções (12.000 estádios é de cerca de 1.500 milhas), embora o uso do número 12 possa ser simbólico. O Santo dos Santos no templo do Antigo Testamento era também um cubo (cf. 1 Reis 6:20). A árvore da vida (Ap 22:2) nos lembra do Éden antes da Queda. Vale ressaltar que a nova Jerusalém não tem sol ou lua, mas é iluminada pelo esplendor da glória de Deus.

Como deve a realidade da nova Jerusalém sobre a nova terra de Apocalipse 21-22 ser compreendida? É apenas uma descrição alegórica do estado final da igreja local sem real nova terra no futuro em vista? É uma cidade literal que possa pairar sobre a terra e a casa da milenar Igreja glorificada dos santos na Era durante esse período e, em seguida, sendo ela transferida para expandir o estado eterno após a renovação da terra (alguns dispensacionalistas, embora, alguns não-dispensacionalistas também, apliquem ao período do milênio)? É uma cidade literal distintamente concebida como um foco central para todos os redimidos no estado eterno? É a visão de João, tendo os motivos apocalípticos, apenas uma declaração no simbolismo sofisticado que Deus será vitorioso no clímax da história? Estas e outras propostas aparecem na literatura que aborda esse aspecto interpretativo da nova Jerusalém. Muitos comentários preferem se concentrar em uma explicação do significado do simbolismo sem abordar esta questão. O gênero apocalíptico, e as exigências, não excluem uma cidade literal futura. Se espera, contudo, que o intérprete venha a concentrar-se na mensagem dos motivos simbólicos, ao invés de se esforçar para a elaboração de um projeto da estrutura.

Gary T. Meadors

Bibliografia.
R. Bauckham, The Climax of Prophecy; G. R. Beasley-Murray, Revelation; M. E. Boring, Revelation; J. M. Ford, Revelation; W. J. Harrington, Revelation; G. E. Ladd, A Commentary on the Revelation of John; J. Walvoord, The Revelation of Jesus Christ.

Fonte: Baker's Evangelical Dictionary of Biblical Theology. Editado por Walter A. Elwell.;
http://bibliotecabiblica.blogspot.com.br/2009/12/nova-jerusalem-estudo-biblico.html
 

23 de jan de 2015

Uma tempestade de grandes proporções está se formando no Oriente Médio

 


Douglas Davis

As classes políticas e da mídia da Europa estão se iludindo. Indolentes, ou ignorantes, ou ambos, elas persistem em fazer a leitura de um roteiro gasto, de 30 anos atrás – que nem à época era acurado – quando vociferam sobre os assuntos do Oriente Médio. Como se a “ocupação”, os “assentamentos”, o “túnel”, o “muro” e outras “questões de crise” fossem a causa de todas as enfermidades do mundo; como se o nascimento da Palestina significasse a chave para a tranqüilidade e a paz, talvez até para a utopia.

“Resolva o problema da Palestina e você terá resolvido os problemas do mundo. Ou, pelo menos, da região”. Errado antes, errado agora, de acordo com um importante político árabe. “Não cometa erros”, disse-me ele seriamente à mesa do jantar. “Estamos à beira de uma catástrofe. E ela não tem nada a ver com o conflito israelense-palestino”.

Depois, ele acrescentou:
“Os palestinos nunca estiveram entre as dez prioridades de nenhum governo árabe. Os líderes árabes não dão a mínima para os palestinos. Eles têm simplesmente usado a questão palestina para desviar a atenção de seus próprios fracassos – para encobrir sua incompetência, suas insuficiências e sua corrupção. Suas medidas de segurança opressivas nunca tiveram a intenção de combater a “agressão sionista”, mas de suprimir a raiva de seu próprio povo. Tem sido um exercício de cinismo, pura e simplesmente. E até mesmo os governos ocidentais engolem isso”.
Agora, diz ele, o mundo árabe – e o mundo islâmico mais amplo – está enfrentando a realidade. É uma realidade que não tem nada a ver com a Primavera Árabe, a democracia, a autonomia e a liberdade. Tampouco tem algo a ver com a violência carregada de ódio supostamente incitada pelo conflito israelense-palestino, teorias de conspiração sobre o imperialismo ocidental, tráfico de influência dos judeus, agressões dos cruzados, charges com insultos, ou vídeos do YouTube (embora esses pretextos sejam freqüentemente usados para justificar espasmos de violência pré-planejados).

“É verdade que há sanções contra insultos ao Profeta”, observou Bernard Haykel, um professor de Estudos do Oriente Médio da Universidade Princeton, “mas isto se relaciona, na verdade, a oportunistas políticos ou simbólicos, que usam símbolos religiosos para fazer avançar seu próprio poder ou prestígio entre outros grupos”.

A realidade não é uma competição a respeito de símbolos e poder. O mundo árabe, que tem estado em declínio relativamente ao Ocidente por 300 anos, está a ponto de explodir (os 57 Estados islâmicos são responsáveis por 20% da população mundial, mas por menos de 7% da produção mundial).
Os 57 Estados islâmicos são responsáveis por 20% da população mundial, mas por menos de 7% da produção mundial.
Hoje, o Oriente Médio encontra-se à beira de uma erupção mortífera, que provavelmente varrerá a ordem existente e alterará radicalmente a ordem regional, com graves implicações estratégicas para o Ocidente.

A região está se despedaçando e está pronta para explodir por causa de suas fronteiras amplamente artificiais ao longo de duas importantes linhas de ruptura, a étnica e a religiosa. Estas emergiram destacadamente depois da queda de Saddam Hussein, do Iraque, em 2003. A divisão étnica é entre os muçulmanos sunitas e xiitas; a divisão religiosa é entre os extremistas islâmicos wahabitas e os movimentos salafistas, ainda mais radicais. As diferenças não são meramente ideológicas; elas são existenciais.

Os conflitos provavelmente envolverão os personagens regionais mais importantes: a Arábia Saudita, o Egito e a Turquia sunitas; o Irã xiita, e, o mais rico de todos, o Qatar pró-salafita, onde o produto interno bruto anual está alcançando mais de 100 mil dólares por pessoa. Os movimentos jihadistas como a al-Qaeda, sem dúvida se intrometerão nessa anarquia numa tentativa de ganhar novos adeptos.

Assim como o comércio mundial ficou globalizado, aconteceu também com a violência islâmica. É improvável que tais conflitos fiquem limitados ao Oriente Médio, mas logo se espalharão para outros países islâmicos na Ásia (principalmente no Paquistão, na Indonésia e na Malásia), e na África (essencialmente nos Estados do Maghreb, a Tunísia, o Marrocos, a Argélia e a Líbia, mas também nos países ao sul do Saara, com significativas populações muçulmanas, como a Nigéria).

Tampouco é provável que os conflitos envolvam batalhas em larga escala entre Estados com exércitos e tanques (embora estes serão, como na Síria, usados contra os “rebeldes”). Em vez disso, eles envolverão o tipo de insurgência que devastou o Iraque, com seres humanos, carros e caminhões-bomba, embates entre comunidades, entre etnias e entre tribos. Tudo resultando em significativos movimentos populacionais, para satisfazer as sempre insistentes exigências dos que promovem a limpeza étnica.

Debaixo de tamanha tensão, as fidelidades se desgastarão e as agências que fazem cumprir a lei – o exército, a polícia e os serviços de inteligência – se fragmentarão. Finalmente, as lideranças burocráticas e políticas se desintegrarão. Já vimos este filme antes. Mas o que temos visto é uma obra em andamento. Até agora, ainda não se testemunhou as cenas finais.

Ninguém está predizendo o resultado; a única certeza é que o jogo final é totalmente incerto. O conflito será prolongado, incontrolável, e não responderá à diplomacia ocidental, não importa quão dura ou cuidadosa ela seja. Não haverá homens de chapéus brancos e de chapéus pretos. Apenas bandidos e ainda mais bandidos.
O conflito será prolongado, incontrolável, e não responderá à diplomacia ocidental.
Este é, de acordo com minha fonte de informações, o panorama miserável para a região. Mas a instabilidade política no Oriente Médio também tem parte na agenda política doméstica da Europa e do Ocidente em geral. No Ocidente – de fato, para o mundo industrializado – o pesadelo está apenas começando. Duas fontes de preocupação provavelmente terão alta prioridade na agenda de qualquer insurgência.

A primeira é o fechamento do que é conhecido no transporte marítimo como “chokepoints” [pontos de sufocamento], através dos quais a energia e o comércio devem fluir. No Oriente Médio, estes pontos são principalmente o Golfo Pérsico e o Canal de Suez.
A segunda é um ataque às riquezas da Arábia Saudita pelos separatistas xiitas, que formam o grupo dominante na região leste do país, onde se localizam os campos de petróleo (os xiitas sauditas podem esperar assistência vinda dos xiitas do lado de lá da fronteira, da região do Iraque, que é rica em petróleo).

O resultado líquido desses eventos será um pico agudo e prolongado no preço do petróleo, com severas consequências para os preços de quase todos os produtos. Também haverá uma severa escassez de petróleo até que o “chokepoint” do Golfo possa ser desbloqueado.
Além disso, o fechamento do Canal de Suez – um curso de água navegável que tem menos de 250 metros de largura e que liga o Mar Mediterrâneo ao Mar Vermelho – forçará os navios a fazerem a viagem muito mais longa entre a Europa e a Ásia, em torno do Cabo, aumentando o efeito sobre os preços de importações e exportações.

Haverá outras consequências para o Ocidente, especialmente para países como a Grã-Bretanha, a França e a Alemanha, que são o lar de grandes populações de muçulmanos, que não estarão imunes às erupções de violência. Isto levará a outras medidas de segurança e maiores erosões das tradições democráticas, tais como a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa.

A Primavera Árabe, que tem sido aclamada – erradamente – no Ocidente como algo que está sinalizando o nascimento da democracia no Oriente Médio, mais provavelmente é o prelúdio de uma convulsão regional e global. Se assim for, está na hora de nos preparamos para mudanças memoráveis. 


(Douglas Davis – thecommentator.combeth-shalom.com.br)

Douglas Davis foi editor-sênior do jornal The Jerusalem Post.

Extraído de Revista Notícias de Israel Fevereiro de 2013